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Xeramõi José Fernandes


Xeramõi José Fernandes, Um dos maiores lideres indigenas do Brasil
Xeramõi José Fernandes, Um dos maiores lideres indigenas do Brasil

Esta publicação tem o intuito de agradecer e de reconhecer a existência e a passagem pelo plano terrestre de um dos maiores líderes indígenas da história do nosso país, o Xeramõi (pajé) Karai Poty (José Fernandes).


De tempos em tempos Nhanderú (Deus) encaminha à Terra seres iluminados, potentes e capazes de fazer história, atuando através do fortalecimento espiritual e da orientação compartilhada e intuída das fontes mais divinas que um ser humano pode acessar …


Karai Poty foi registrado em cartório no dia 25 de maio de 1940, possuindo 80 anos quando fez a sua passagem em (21/5/2021), entretanto, segundo as informações de familiares e de pessoas mais próximas, a sua idade real era entre 88 e 89 anos. Ele sempre foi reconhecido como uma grande referência aos olhos da cultura Guarani e para todos que conheceram a sua história, tornando-se um importante guerreiro da batalha pela demarcação de terras indígenas em diferentes regiões do Brasil, atuando, principalmente, na capital, litoral e no interior do estado de São Paulo.


Sua história é transmitida pelos ventos e conhecida nos quatro cantos do Brasil, chegando, inclusive, em outros países como o Paraguai e a Argentina, onde a presença Guarani também se manifesta de uma forma muito profunda e ancestral.


Segundo as suas próprias palavras, quando mais jovem, por volta dos 25 anos, chegou a pedir a Nhanderu (Deus) para ser pajé, pois sempre acompanhou e reconheceu a luta dos seus antepassados, principalmente do seu avô, com quem aprendeu a lutar pela terra e pelo seu povo; reconhecendo a importância dos ancestrais e a responsabilidade de transmitir os seus conhecimentos aos mais jovens, que terão a responsabilidade de fortalecer e de dar continuidade à “causa indígena”, qual é de todos nós!


Sua presença alegra a vida e cativava a todos, e isto ocorre até hoje quando a sua lembrança e presença se manifesta através do chacoalhar do Mbaraka (Maracá/Chocalho, instrumento musical sagrado) ou no toque do Takuapu (Bastão de Taquara; Instrumento musical sagrado) dentro das Opy na busca de fortalecer e de iluminar o corpo físico.


Dentro da sua jornada e história de vida, uma das coisas que mais me chamava atenção era o cuidado e o amor oferecido às pessoas a sua volta, dedicando respeito e valor humano a todos, principalmente aos mais jovens; tanto que certo dia lhe ouvi dizer que “não importa se a pessoa é mais nova, ela é capaz de guiar e dar conselhos para melhorar a vida de todos. Então eu sei que sou capaz e esses jovens também são […] É assim que pedimos pra Nhanderu nos dar força e nos mostrar novos líderes espirituais”.

A trajetória dos povos indígenas no Brasil nunca foi fácil, estando regada a 500 anos de ataques, violência e violações por parte do Estado e da população que desconhece a importância dos povos indígenas; entretanto o trabalho constante do Pajé José Fernandes resultou em importantes conquistas para a sua cultura, como, por exemplo, o auxílio direto no processo de demarcação da Terra Indígena Guarani do Jaraguá e, consecutivamente, na consolidação da Reserva Infígena Guarani Gwyra Pepó, localizada no município de Tapiraí, no interior do estado de São Paulo.


Durante os últimos anos tive a honra e a felicidade de estar em sua presença em diversos momentos, vivenciando parte desses processos e histórias, resultando em um profundo aprendizado sobre o anhetengua (caminho), conhecendo de perto e incorporando em minha vida e no meu caminhar alguns elementos que constituem o nhandereko (modo de vida tradicional Guarani), promovendo uma íntima relação com o tempo natural e encontrando a felicidade nos momentos mais simples.


Neste caminhar aprendi que os meses de agosto e setembro são muito especiais para a cultura Guarani, pois é neste momento do ano que acontece o Ara Pyau (Primavera e Ano Novo Guarani), onde Nhanderu e as forças da natureza nos trazem a renovação dos espíritos, da alma e de toda a natureza; onde florescem as flores, plantas, onde acontece todo o renascimento da “vida”. Esse importante momento do ano também carrega em si a oportunidade de realizar o batismo das crianças e a celebração do ritual Ka’a’i (Ritual Tradicional Guarani da erva mate), momento, qual, reforça a identidade ancestral do povo Guarani, celebrando a renovação da vida.


Neste momento do ano, ainda dentro do Ara Pyau, carregado de importância e simbolismos, o povo Guarani embarca em um profundo processo de compreensão dos seus ritos, histórias e do universo que compõem a cultura Guarani; trazidos através de uma cosmovisão mítica e temporal, manifestada por cantos, poesias e por simbolismos que se baseiam na transmissão oral dos conhecimentos.


O Ara Pyau e a cerimônia da erva-mate (Ka’a’i) possuem um viés educativo muito elevado, transmitido através da valorização dos seus saberes ancestrais, mas, principalmente, pela oralidade, normalmente desempenhada pelos mais velhos que sempre nos encantam e que se manifestam pela entonação da voz, gestos e expressões faciais, nos conduzindo por tempos imemoriais pelos elementos da cultura Guarani; resultando em um importante movimento de resistência cultural, ofertando memórias e saberes originários de uma ancestralidade mítica e originária, se opondo dialeticamente à cultura inclusiva dos juruás (não indígenas).

Ainda que um passado histórico violento tenha reprimido tais manifestações culturais, ainda assim a cultura Guarani preservou os seus fundamentos e ritos, perpetuando o Nhandereko através dos seus benzimentos, rituais de purificação e renovação, simbolizado pela presença e a consagração de vegetais sagrados e dos seus frutos colhidos, constituindo, então, o Nhemongarai (ritual de batismo Guarani).


Sendo assim, o tempo Guarani abarca diferentes elementos que seguem conduzindo-os através da Tataxina (fumaça sagrada) do petyngua (cachimbo), que, dentro de tantas virtudes, contribui com a preservação e a conservação da inteligência e no entendimento do tempo da natureza, respeitando os eventos históricos da aldeia e a sua relação com o mundo espiritual.

Este momento tão importante do ano é tido como uma grande oportunidade de celebração, ainda que envolto de grandes desafios, entretanto a força e a eterna presença física e espiritual dos Xeramõi promovem a continuidade dos elementos essenciais para a reprodução da cultura Guarani; tanto que essa foi uma das maiores lutas do Xeramõi Karai Poty (Pajé José Fernandes), orientando a todos os seres humanos que passavam pela sua presença de que a vida e o seu caminhar se tratam, na verdade, de um grande e belo caminhar espiritual … ouvir ele dizendo isso pessoalmente mexeu, com toda certeza, com todas as estruturas do meu ser.


Outra característica que sempre me marcou muito no Xeramõi Karaí Poty (Pajé José Fernandes) foi o cuidado e o respeito com as crianças, valorizando-as como verdadeiros professores que, além de serem capazes de nos guiar e de ensinar alguns dos maiores ensinamentos da vida, também serão os responsáveis por dar continuidade à causa indígena.


Neste ano o Ara Pyau será diferente, pois um dos maiores líderes indígenas e espirituais já não está mais fisicamente entre nós, mas o seu espírito e o seu legado permanecerá para sempre em nossos corações, cativando-nos a continuar com a nossa caminhada física e espiritual, mas nunca se esquecendo de que a luta não é só pela demarcação de terras, mas, também, pela valorização da saúde e da educação dos povos indígenas e de toda a humanidade.

Conheci o Pajé José Fernandes na Terra Indígena do Jaraguá (a menor Terra Indígena do Brasil, em plena capital paulista); foi nesta terra sagrada que ouvi pessoalmente dele que tinha sido Nhanderu quem tinha mostrado aquele local aos Guaranis; e nós, mais do que acreditar nisso, vamos lutar pela preservação deste território sagrado que é o berço de tantos líderes espirituais e de conhecimento.


Em seus últimos anos de vida, o Xeramõi Karaí Poty viveu na Reserva Indígena Gwyra Pepo (Tapiraí, SP.), onde foi fundamental para a conquista e a demarcação deste espaço; atuando como uma verdadeira fonte pura e límpida de conhecimento e tradição. Dias antes da sua passagem eu visitei a Reserva Indígena, onde pude implementar um projeto que contribuiu com a estrutura sanitária da comunidade; naquele momento, vivido com muita alegria e satisfação, pude realizar a última gravação do Xeramõi Karaí Poty ainda em vida, onde foi possível conhecer um pouco mais da sua história. Este vídeo, para nós, é um verdadeiro presente, guardado como um valioso tesouro que nos enriqueceu com alegria, vida e inspiração … Dessa forma, além de compartilhar esse vídeo, também desejamos encerrar essa humilde homenagem ao Xeramõi Karaí Poty e à cultura Guarani como a seguinte menção em Guarani: Ha’evete! (Gratidão!).

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